Noel pode esperar - Parte 4



⠀⠀⠀⠀⠀Estou perdida na paisagem que passa pela janela quando o ônibus começa a diminuir a velocidade. 
— O que tá havendo? — pergunto me pendurando sobre os bancos da frente. Thayná repousa nos ombros de Luiz. É ele quem me responde: 
— Parece que faremos uma parada. Podemos procurar algo pra comer, você topa? 
⠀⠀⠀⠀⠀São um pouco mais de quatro horas, não sinto nada de fome mas a chance de sair um pouco desse ônibus e receber um punhado de ar é irrecusável. 
⠀⠀⠀⠀⠀Nós deixamos Thayná capotada nos bancos encardidos e saímos em busca de algo. Eu aproveito esse tempo com Luiz para saber um pouco mais sobre ele. Eu sempre li em livros que conhecer pessoas em viagens é uma coisa muito aproveitadora a se fazer, e, conhecendo bem minha amiga, enquanto ela puder monopolizar o rapaz, ela vai fazer. Então essa é a minha chance. 
— Então Luiz, quantos anos você tem? — pergunto. 
— Tenho 21. Tô indo pra São Paulo para passar o natal com meu pai e sim, eu trabalho e estudo. 
⠀⠀⠀⠀⠀Ele me carrega de informações sem que eu tenha perguntado. Qual a necessidade? 
— Essas são as perguntas clichês de viajantes — ele emenda antes que eu abra a minha pobre boca. — você chegaria lá então já adiantei tudo. 
⠀⠀⠀⠀⠀Ele ri, e seu sorriso é confortável. Eu meio que agradeço por Luiz estar aqui. 
— Mas e você? Perguntas clichês primeiro — ele pergunta.
⠀⠀⠀⠀⠀Luiz é definitivamente muito diferente de will. E me culpo por fazer essa comparação. Luiz é calmo e ao mesmo tempo exibido, é alto e exibe boas experiências. Eu não vejo nele a cautela que sinto com Will e o brilho que preenchem meus olhos em will tristemente ofuscados em Luiz. Talvez essa seja uma coisa que a gente faz quando estamos apaixonados, ignoramos todo o resto. 
⠀⠀⠀⠀⠀Meu celular vibra com uma mensagem de will, sorrio e me perco.

"Oi meu amor! Não consigo acreditar que você está mesmo vindo pra cá. Bem, tive um problema e acabei de chegar em casa, estou ansioso! Me conte tudo" 

⠀⠀⠀⠀⠀Eu poderia contar que Thayná está vindo junto comigo. E que conhecemos Luiz, um estudante de direito exibido. Poderia contar que o ônibus atrasou e que vamos chegar tarde. Mas eu também li nos livros que o celular sempre impede e atrapalha muitas coisas. Eu ando lendo muitos livros. Isso vai me matar.
⠀⠀⠀⠀⠀Desligo meu celular enquanto voltamos para o ônibus. 
⠀⠀⠀⠀⠀O resto da viagem tinha tudo pra ser calmo, tirando o fato de Thayná e Luiz não calarem a boca. O barulho dos dois impede que eu consiga ler uma miserável página, então tento cochilar um pouco. Torcendo pra acordar em São Paulo. 
⠀⠀⠀⠀⠀Acordo com as mãos nada gentis de Thayná me sacudindo. Anunciando que finalmente chegamos. 
— Eu vou pensar dez vezes antes de bancar a melhor amiga do mundo — ela diz, se espreguiçando. — estou quebrada! 
— Como você aguenta esse drama todo? — Luiz pergunta para mim.
⠀⠀⠀⠀⠀Eu sorrio em resposta. Eu não sei como eu aguento, Luiz. Mas pelo visto, você também está disposto. Thayná pousa uma das mãos nos ombros dele.
⠀⠀⠀⠀⠀Qual a probabilidade disso dar certo? Penso. E imediatamente cruzo os meus dedos.
Quando descemos do ônibus o sol já está no céu. O terminal rodoviário é uma bagunça de pessoas e malas, todos tentando chegar aos seus destinos antes da ceia. O peru não pode esperar. 
⠀⠀⠀⠀⠀Luiz começa a nos dar instruções, faz parte do espírito paulista dele. Após comprarmos nossos bilhetes estamos todos prontos para pegar o metrô. 
— Eu acho que vou com vocês, quero como isso tudo vai acabar. 
— Ótimo! Você pode nos ajudar a chegar lá. — Thayná responde quase gritando.
⠀⠀⠀⠀⠀E todos nós decidimos fingir que esse é o real motivo para que Luiz fique.
⠀⠀⠀⠀⠀Com o atraso do ônibus, temos duas horas a menos antes do encontro com Will. Marcamos cinco horas no vão do MASP, o museu de arte de São Paulo. Ele me disse que lá tem um mirante bem legal e segundo ele “é o cenário ideal”. 
⠀⠀⠀⠀⠀Eu tinha planejado matar todo esse tempo visitando a livraria mais famosa da Avenida Paulista, mas agora com Thayná e Luiz, acabamos votando democraticamente e decidimos dar uma volta pelo parque ibirapuera. 
⠀⠀⠀⠀⠀Luiz pede licença para ligar para o pai, e enquanto Thayná e eu esperamos por ele, uma senhora senta em seu lugar agora vazio. 
— Ai como eu estou cansada — resmunga, com a voz abafada. 
— Da onde a senhora está vindo? Viagem longa? — pergunto despretensiosamente. 
— Quem me dera, minha filha! Ainda estou indo. Vou passar o Natal com minha neta e sua esposa no Rio De Janeiro. — Ela bate as mãos em sua perna, a saia florida que veste balança como um sino. 
— Nós acabamos de vir de lá, eu moro na Tijuca. Essa é minha amiga Thayná! — apresento. — Por que a senhora não vai de avião? É tão mais prático. 
Se eu tivesse o dinheiro, estaria no aeroporto agora mesmo. 
— Deus me livre entrar nessas máquinas menina, o céu é um mistério. 
⠀⠀⠀⠀⠀Me pergunto qual a probabilidade de eu estampar as mesmas rugas dessa senhora, e continuar achando que o céu é um mistério. Estrelas são mistérios, elas são como pingos de tinta no céu. 
— Aí, essa doida ai pensa a mesma coisa! — agora é Thayná quem fala — ela vive dizendo que o céu não é azul, cê acredita? Eu acho que ela é daltônica, isso sim. 
— Mas o céu pode mesmo não ser azul — retruca a senhora, lançando um olhar gentil para mim.
Ela me conquista de vez. Eu poderia passar o Natal todinho com ela sua neta e a esposa. Seria um natal de reflexões, com certeza. 
⠀⠀⠀⠀⠀Mas eu tenho Will. E eu não vejo a hora de vê-lo. 
⠀⠀⠀⠀⠀Mesmo sem que me pergunte, eu acabo contando toda a minha história para essa senhora. Talvez seja o seu sorriso amarelo que abre a minha boca, mas quando vejo, estou contando desde o aplicativo de mensagem até como cheguei aqui. Nada que você já não saiba. Ela ouve tudo com muita atenção e acena com a cabeça em diversas passagens. Thayná se afasta e se junta a Luiz. Meu olhar os perde. 
⠀⠀⠀⠀⠀É bom falar de Will. 
— Sabe minha filha, eu já fiz tantas maluquices por amor! — ela diz, com muita calma. O que me ajuda a digerir o sotaque paulista. — E sabe o que eu aprendi? Que o amor é jovem. Cauteloso. Não atropele fases e nunca faça algo que seu coração não sente, ele não vem embalado em um plástico bolha. Corações são frágeis. 
⠀⠀⠀⠀⠀Corações são frágeis. 
⠀⠀⠀⠀⠀A senhora me convence a ligar para meus pais, ela não diz isso diretamente. Mas eu entendo que é hora de fazer isso. Quem eu estava pensando que era quando decidi entrar em um ônibus e passar o Natal em outro estado sem contar nada para eles? Confesso que não pensei muito nessa parte. Pego minha agenda amarela até então esquecida e rabisco em uma página toda. 

“Confie em você mesma”

⠀⠀⠀⠀⠀Disco os números enquanto olho para Thayná, ela parece discutir com Luiz não muito longe daqui, seja o que for, não me parece nada bom. 
— Alô? Mãe? — começo.
— Sara? Onde você está? — a voz do outro lado pergunta preocupada. 
— Bom… eu estou em São Paulo. 
— Em são Paulo? — grita. 
⠀⠀⠀⠀⠀Eu explico tudo, a cada vez que eu conto essa história ela perde um pouco dos detalhes. O que a torna técnica e chata. Será que é isso que os autores sentem quando se debruçam sobre suas obras?
— Sara, por que você não nos contou? 
— Eu… não sei mamãe — confesso. 
— Bom, agora já foi! Nunca pensei que diria isso, mas… ainda bem que a doida da Thayná está aí com você. — ouço ruídos causado por sua risada muito próxima ao telefone. — De todo modo, eu tenho uma amiga do tempo de faculdade ai, vou ligar para ela agora mesmo e ver se ela aceita fazer parte dessa maluquice. 
— Mãe, eu te amo. — É tudo o que consigo dizer. 
— Eu também te amo filha, me ligue assim que possível. 
⠀⠀⠀⠀⠀Desligo e sorrio pro telefone, é o cenário perfeito. Tudo se acertou! Vou me encontrar com Will nas próximas horas, meus pais já estão sabendo… não sou mais uma fugitiva e tem a Thayná…
⠀⠀⠀⠀⠀Bom, deveria ter uma Thayná.
⠀⠀⠀⠀⠀Corro meus olhos ao redor, ela estava bem ali! 

 Parte 5

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