Noel pode esperar - Parte 2



⠀⠀⠀⠀⠀Quando chego na rodoviária, confiro o relógio. Ainda falta uma hora e meia até que anunciem o embarque do meu ônibus. Até São Paulo são aproximadamente quatrocentos e sessenta quilômetros e, quando vim comprar minha passagem, acabei pegando duas para evitar que um psicopata se sente ao meu lado. Ser segura causa um enorme buraco nas minhas finanças. Adeus celular novo, penso. 

⠀⠀⠀⠀⠀Como se o universo ouvisse os meus pensamentos, meu celular vibra. Eu detesto ter que falar ao telefone, porém tenho a completa noção de que se eu não atender, a pessoa do outro lado da linha vai ter ainda mais tempo pra pensar na forma como vai me matar.

— Thayná, eu pensei que estivesse dormindo — digo usando a minha voz mais calma. Pra fingir que tá tudo bem em ter escondido esse segredo dela por tanto tempo. 
— Você não ouse me passar pra trás salita! Onde você está agora? — ela diz a última palavra com muito cuidado. Como se tivesse medo da resposta. 
— Eu estou na rodoviária, calma! Ainda tenho uma hora e meia até que meu ônibus saia. — digo, repassando meu plano novamente.
— Ah certo! — Escuto barulhos no fundo, hoje é o dia que as pessoas tiraram para não dormir? — eu chego aí em dez minutos. Eu espero que você arrume uma passagem, sempre quis conhecer São Paulo! 
— Não Thayná! — eu grito. — você não pod…
⠀⠀⠀⠀⠀O fim da chamada é imediato. Eu nem tenho a chance de dizer que já tenho uma passagem extra anti psicopatas e em que posto de embarque estou. Mesmo que eu quisesse que ela viesse comigo.

⠀⠀⠀⠀⠀Thayná chega em exatos dez minutos. Isso é uma coisa que ela faz com frequência, ser exata com o tempo. Ela veste uma blusa de renda e shorts curtos, qualquer um aqui que não conhecesse a história, pensaria que ela está um pouco atrasada pra balada. Já era a entrada vip. ⠀⠀⠀⠀⠀Minha boca fica cheia de ar quando ela se aproxima, demorei um tempo pra aceitar a ideia de levá-la comigo, mas agora meio que tá tudo bem. — Não adianta fazer essa cara não — ela diz se sentando ao meu lado. — você tá maluca ou o que? Pra onde você ia sem mim? ⠀⠀⠀⠀⠀Thayná é minha amiga desde o quarto ano, nós sempre estivemos juntas e compartilhando todos os nossos segredos mas, depois de tanto egoísmo por sua parte, eu meio que ativei o modo privado. É complicado contar sua história para quem não quer ouvir. Eu poderia falar isso pra ela aqui e agora, assim ela voltaria pra casa e eu seguiria minha viagem. — Eu comprei uma passagem pra você — minto, ignorando o assunto que brota na minha cabeça. — Eu acho bom, quanto tempo teremos de viagem? Espero que o bastante para que você me conte tudo sobre esse menino.
⠀⠀⠀⠀⠀Eu detesto a ideia. Mas nós teremos tempo de sobra pra isso.
⠀⠀⠀⠀⠀O nosso ônibus atrasa. Solto um palavrão aos céus enquanto Thayná grita com o moço da bilheteria. Ele se esforça para tranquilizá-la enquanto minha amiga bate com as pequenas mãos no guichê, assim, de longe, eu quase sinto medo dela. 
— O nosso ônibus foi cancelado, trocaram nossas passagens e o próximo sai em — ela olha para as passagens em sua mão — duas horas. 
— DUAS HORAS? —  eu grito. 
— Bom, não temos o que fazer.
⠀⠀⠀⠀⠀Meu coração bate mais forte, um atraso de duas horas é tudo o que eu não posso ter. Em duas horas tudo pode dar errado antes mesmo que eu entre no maldito ônibus. Thayná lê o pânico em meu rosto e sugere que a gente coma algo, porque segundo ela, comida sempre pode resolver as coisas. E caso não resolva, pelo menos a barriga tá cheia. 
⠀⠀⠀⠀⠀Pego meu celular e ligo pro Will, ignorando totalmente o fato de ser madrugada. Eu estou nessa aventura por ele, então o mínimo que ele pode fazer é me atender. 
⠀⠀⠀⠀⠀Mas ele não atende, alguns toques e a ligação cai na caixa postal. Droga, Will.
— Vamos logo, você vai pagar! — Thayná me puxa pelos braços em direção à lanchonete da rodoviária. 
⠀⠀⠀⠀⠀O lanche é horrível. Melhor dizendo, é tenebroso. A carne parece requentada e o pão é mais duro que uma torrada. Não vale nem um terço do valor que paguei. Nós engolimos rápido para acabar com o sofrimento e voltamos para os velhos bancos azuis com acolchoados amarelos da rodoviária. Não deixo de notar o rapaz bonito que está sentado ao nosso lado, ele não estava aqui quando saímos para comer. 
— Vocês também perderam o ônibus pra São Paulo, garotas? — O modo como ele diz garotas é estranho, ele demora no a e a palavra ganha um novo tom em seus lábios carnudos.
— Sim, é por isso que eu prefiro aviões sabe — Thayná responde animadamente — mas minha amiga aqui que planejou essa besteira toda. 
⠀⠀⠀⠀⠀É mentira, Thayná nunca andou de avião e se tivesse andado, eu saberia. Enquanto segue com suas mentiras ela vira o rosto em minha direção e balbucia um “meu deus, que gato!”. 

 Parte 3

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